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Formar valores humanos e cristãos: eis o desafio
A Semana Nacional da Família deste ano – de 8 a 15 de agosto – continua nos propondo a reflexão sobre “Família, formadora de valores humanos e cristãos”. Aparentemente óbvio, esse tema comporta uma série de desafios, dadas as diversidades de situações muitas vezes conflituosas encontradas em nossas famílias.
Educação: trabalho paciente e perseverante “Em que foi que nós erramos?” - perguntou-me uma amiga de Belo Horizonte, já um tanto cansada de pelejar com um de seus três filhos. “Meu marido e eu sempre procuramos dar o melhor de nós mesmos, penso que somos pais exemplares. Os outros filhos não nos dão trabalho; mas o garoto mais novo já passou dos limites; está acabando com a nossa paciência!” - lamentou minha amiga. Outro casal, companheiro de muitos anos da Pastoral Familiar, com uma presença marcante em sua comunidade e uma vasta folha de serviços prestados a tantas outras famílias, está enfrentando situação semelhante com o filho mais velho, dotado de grande inteligência, mas sempre desafiando os pais que fizeram o possível e o impossível para que os filhos tivessem o melhor em termos de educação, tanto em família quanto na escola. “Diálogo constante, bons livros de orientação e uma participação intensa na comunidade paroquial foram coisas que não faltaram lá em casa” - garantiu o pai, desafiado em sua missão. “Fui sua catequista vários anos, em casa e na comunidade, do ventre até o dia em que foi crismado”, acrescenta a mãe, que já chorou muito por ver o filho buscando, hoje, valores diferentes daqueles que mereceram tantos investimentos por parte dela e do marido. “Depois de tantas lágrimas, hoje não brigo mais com meu filho por causa de suas opções atuais, inclusive religiosas. Pelo contrário, procuro tratá-lo da melhor maneira possível. Mas não cesso de orar por ele, porque é grande minha confiança em Deus”, completa a mãe esperançosa. Filhos que ensinaram aos pais Bem outra é a situação de casal que conheci em uma das reuniões da Pastoral Familiar. “Em nossa família, nossos filhos tinham tudo para crescerem com problemas... Começamos mal nosso casamento... Muitos desentendimentos e brigas... Mas nossos filhos foram uma bênção para nós. Eles nos ajudaram a encontrar Deus e nos trouxeram para a Igreja”, garantiu o pai emocionado. “Hoje somos uma família feliz. O amor que Deus nos manifestou através dos filhos nos leva a ajudar outras famílias que vivem situações parecidas com as que experimentamos”, completou a esposa feliz e agradecida. Casos como este acontecem; aparentemente raros, podem ser até mais numerosos do que imaginamos. São numerosos os filhos que evangelizam seus pais e promovem uma vida melhor para suas famílias. Encontramos também casais que vivem numa contínua ação de graças pelo motivo de seus filhos nunca lhes terem dado trabalho. São dóceis às orientações paternas e abertos ao diálogo. Mostram-se compreensivos diante das exigências feitas em vista da realização de um projeto familiar comum. Mais ainda: são capazes de uma reação positiva e madura diante das propostas ambivalentes do mundo de hoje. Quando tudo isso acontece, há mesmo motivos para a permanente ação de graças. No entanto, por melhores que pareçam esses filhos, eles não são anjos e têm lá seus momentos de desafio. Daí a necessidade de atenção permanente dos pais. Outras situações, diferentes ou parecidas com as mencionadas até aqui, estão presentes no meio de nossas famílias, mostrando que o processo educacional comporta sempre desafios permanentes, ora maiores, ora menores. Educação que leve a fazer escolhas Educar, nos dias de hoje, é desafio, é arte. Numa sociedade tradicional, por exemplo, o que os pais diziam em casa sobre a fé – ou o que se conversava num grupo de jovens – tinha o respaldo da sociedade. Quando uma criança ia brincar na casa dos colegas percebia que as coisas que eram ensinadas lá eram as mesmas que ela aprendia em sua casa. Tanto na sua família quanto na dos colegas, as pessoas aceitavam os mesmos valores, as mesmas verdades objetivas. Aquilo que fora ensinado em casa era algo objetivo, pois havia uma plausibilidade social. No entanto, na sociedade pluralista em que vivemos, há uma visão fragmentada da realidade ou uma porção de “verdades” e “valores” diferentes e até contraditórios. Se uma criança ouve falar, em casa, de Jesus Cristo e das verdades da fé, se é formada nos valores de uma boa convivência humana e cristã, se aprende a importância da solidariedade e da partilha, quando ela vai brincar na casa dos colegas, acaba encontrando situações diferentes: uma colega não é católica, mas budista; outra não reza em família; outra colega não tem religião nenhuma; outra ainda aprendeu que a felicidade está em poder comprar este celular ou aquela marca de tênis; outra amiga acha que ninguém precisa se preocupar com os outros... O que vai ficar na cabeça desta criança? Vai ficar que só o pai e a mãe acreditam em tal coisa, em tal verdade, em tais valores. Por isso, essa criança deverá ser educada pelos pais para fazer sua escolha, vai ter que assumir algumas convicções, vai ter que ser minoria, porque a maioria não tem mais convicções. Educar os filhos para a vida é oferecer-lhes uma formação sólida que comporta o diálogo e a partilha, tanto dos momentos bons quanto dos difíceis. Comporta o carinho, a ternura, a capacidade de emocionar-se e até mesmo de chorar juntos. Educar os filhos para a vida exige incentivos e limites. Tudo com muito amor. Mais do que pelos conselhos, os pais educam por aquilo que são e fazem. O primeiro evangelho para os filhos continuará sendo o testemunho de vida dos pais. Tempo, paciência e preces Outra questão a considerar diante dos desafios educacionais é o fator tempo. A conversão de santo Agostinho, por exemplo, obra da graça de Deus, custou vinte e dois anos de preces e de lágrimas de sua mãe, santa Mônica, em quem muitas mães hoje se espelham e inspiram, por viverem situações semelhantes. Mais ainda, na parábola do “pai misericordioso” (Lc 15), foi o “filho pródigo” quem ganhou a festa. Assim, haverá nas famílias mais alegria pelos filhos que se convertem do que por aqueles que não precisam de conversão. Pe. Sebastião Sant’Ana Pároco de N. Sra. de Guadalupe Pq. das Laranjeiras, Flores – Manaus, AM Fonte:Catolicanet |