| O Mestre da oração - Padre José Assis Pereira “Estando em certo lugar, orando, ao terminar, um de seus discípulos pediu-lhe: Senhor, ensina-nos a orar, como João ensinou a seus discípulos”. (Lc 11,1) O que deseja conhecer o discípulo sobre a oração? Os apóstolos eram judeus e, por isso, a oração era um elemento consubstancial às suas vidas. Conheciam orações para todo tipo de ocasião: orações para a manhã, à noite, para abençoar as comidas... O que aqui pedem é sem dúvida algo novo e distinto; o que eles desejam é conhecer a oração de Jesus, ser iniciados em sua relação de caráter único com Deus-Pai. Querem uma oração que recapitule de certo modo a mensagem específica de Jesus e se adapte à sua condição de discípulos.
Há outro dado muito sensível que merece ser ressaltado nesta perícope Lucana: “Jesus estava orando”. “O contexto (da Oração do Senhor) é, portanto, o encontro com a oração de Jesus, que desperta nos discípulos o desejo de aprender com Ele a rezar. É muito característico para S. Lucas ter atribuído à oração de Jesus um lugar muito especial no seu Evangelho. A ação de Jesus em geral surge da sua oração, é suportada por ela. Assim, acontecimentos essenciais do seu caminho, nos quais progressivamente se desvela o seu mistério, aparecem como acontecimentos que brotam da oração... Por isso, é significativo que S. Lucas coloque o Pai-Nosso em relação com a própria oração de Jesus. Ele nos torna assim participantes na sua própria oração, Ele nos introduz no diálogo interior do amor trinitário... Ele quer formar o nosso ser, exercitar-nos no modo de pensar sobre Jesus”. (Bento XVI, 2007.)
Estamos acostumados a ver a Jesus como o "Filho amado" (Mc 1,11) e, portanto como alguém que viveu constantemente uma comunhão natural e espontânea com Deus. Isso se faz mais significativo, se considerarmos o fato de que durante sua existência terrena Jesus não deixou de empregar o tempo necessário para deter-se e penetrar de forma concreta na intimidade divina, em um "a sós com Deus" na oração. Mas, “embora os Evangelhos falem muitas vezes de Jesus em oração, não é muito o que sabemos dele como orante. É sempre temerário querer penetrar no mundo da oração de um santo. A oração verdadeira é coisa tão íntima e pessoal que ninguém consegue penetrar na oração de um santo, mesmo quando tenha deixado fórmulas escritas. Como Jesus, os santos deixam a certeza de que a oração é essencial, mostram-nos alguns princípios e modelos, fornecem-nos textos... Encontramos Jesus orando em particular, em lugares desertos (lc 6,12; Mt 14,23; 11,25-26) e em público (Lc 23,34; Jo 17,1; 11,41-42). Reza na intimidade com o Pai; reza por si mesmo (Mc 14,35-36; Lc 22,41); reza pelos Apóstolos (Jo 17,15) e em especial por Pedro (Lc 22,32); reza por aqueles que o crucificaram (Lc 23,34); reza no momento de sua morte (Lc 23,46). Foi durante a oração que o amor do Pai e a comunhão trinitária se manifestaram sobre Jesus (Lc 3,21). Lucas mostra Jesus como homem de oração e um mestre que oferece à comunidade um verdadeiro catecismo sobre a oração (Lc 11,2-14; 18,1-14; 21,36; 22,40-46). E é Lucas o evangelista que recolhe uma série de textos usados pelas primeiras comunidades cristãs: o Magnificat (Lc 1,45-55), o Cântico de Zacarias (Lc 1,68-79), o de Simeão (Lc 2,29-32), o canto dos anjos (Lc 2,14), o hino de Jesus de louvor ao Pai (Lc 10,2) e o Pai-Nosso, que lemos hoje, mais breve e menos judaico que a versão trazida por Mateus (Mt 6,9-13)... Os Apóstolos aprenderam a rezar tanto pelo exemplo pessoal do Mestre quanto pela fórmula ensinada do Pai-Nosso”. (Neotti, 2003.)
Mais do que um ensinamento, o Pai-Nosso é um retrato da vida e da oração de Jesus. Ele ensina: “Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu Nome; venha o teu Reino; o pão nosso cotidiano dá-nos a cada dia; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair na tentação”. (Lc 11, 2-4) Dois fatos nos chamam a atenção nesta Oração do Senhor: a grande sensibilidade e a presença de todas as formas de oração. Por um lado, a grande sensibilidade do Pai-Nosso permite que seja recitada de forma compreensiva tanto por uma criança como por uma pessoa idosa. Por outro lado, fortemente enraizada nos textos do Antigo Testamento, com uma linguagem nova, reúne em poucas palavras os diferentes tipos de oração: louvor, súplica, oferecimento e pedido de perdão. Mas, só se formos capazes de mergulhar no mistério do Pai-Nosso poderemos perceber por debaixo das aparências simples, por trás das expressões contextuais de origem judaica e bíblica, algo único, fruto de uma imersão profunda na vida íntima de Deus, esta confiança em Deus que nos transmitiu Jesus Cristo nos faz falar como ele com toda confiança e respeito a Deus como nosso Pai.
O Pai-Nosso não é uma fórmula de oração, superior às outras, porque foi ensinada pelo Senhor; é uma síntese de toda a mensagem cristã. “A Igreja recebeu e viveu desde as origens este dom indissociável das palavras do Senhor e do Espírito Santo, que a elas dá vida no coração dos crentes. As primeiras comunidades rezam a ‘Oração do Senhor’ três vezes ao dia, em lugar das ‘Dezoito bênçãos’ em uso na piedade judaica. Segundo a Tradição apostólica, a Oração do Senhor está essencialmente arraigada na oração litúrgica. Em todas as tradições litúrgicas, a Oração do Senhor é parte integrante das grandes horas do Ofício Divino. Mas é sobretudo nos três sacramentos da iniciação cristã que seu caráter eclesial aparece claramente”. (CaIC n. 2767;2768)
Até os primeiros quinhentos anos do cristianismo, as primeiras comunidades consideravam o Pai-Nosso uma oração reservada apenas aos batizados, aos iniciados; no dizer de Tertuliano (séc. III) o resumo de todo o Evangelho: “Depois de nos ter legado esta fórmula de oração, o Senhor acrescentou: ‘Pedi e vos será dado’ (Jo 16,24). Cada qual pode, portanto, dirigir ao céu diversas orações conforme as suas necessidades, mas começando sempre pela Oração do Senhor, que permanece a oração fundamental”. “No Batismo e na Confirmação, a entrega [‘traditio’] da Oração do Senhor significa o novo nascimento para a vida divina”. (CaIC 2769) Os catecúmenos a aprendiam a Oração do Senhor [“Pater”] diretamente do bispo. Era como o compêndio de todo o conhecimento sobre Deus e sobre a vida cristã.
O Pai-Nosso é a grande escola e oficina de oração do cristão, é o resumo de tudo que há de bom e tudo o que o discípulo pode desejar obter do Pai. O Pai-Nosso é como um caminho ou um método de oração a ser constantemente trilhado pelos discípulos, que nunca devem se cansar de bater, pedir e procurar.
Depois de ter apresentado o modelo da oração cristã, o Mestre conta a parábola de um amigo inoportuno que não deixa em paz seu amigo, com muita insistência, pede que este lhe empreste três pães. (Lc 11,5-8) Esta história quer ensinar-nos que a oração só consegue resultados se for perseverante. Depois lhes põe o exemplo do pai bom, que não será nunca capaz de dar algo mal a seu filho. (Lc 11,11-12) E a conclusão que saca o mesmo Jesus destes exemplos é: “Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem”. (Lc 11,13) E eu creio que isso é o que nós temos que pedir sempre: que o Espírito Santo que habita em nós nos ilumine e nos dê forças para que sejamos capazes de fazer em cada momento a vontade de Deus. O Espírito Santo é o Espírito de Jesus, por isso, quando temos que discernir cristãmente qual é a vontade de Deus, devemos perguntar-nos como agiu nesse momento Jesus de Nazaré. Para isso temos os evangelhos e outros escritos do Novo Testamento que nos dizem como atuou Jesus em cada momento concreto. Jesus orava.
Mas, o que é a oração? Pergunta o Catecismo da Igreja Católica e responde com uma afirmação de Sta. Teresa do Menino Jesus: “Para mim, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou no meio da alegria”... A oração quer saibamos ou não, é o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede dele... A oração cristã é uma relação de Aliança entre Deus e o homem em Cristo. É ação de Deus e do homem; brota do Espírito Santo e de nós, totalmente dirigida para o Pai, em união com a vontade humana do Filho de Deus feito homem”. (CaIC n. 2558-2564)
Hoje cremos que a definição que muitos de nós aprendemos de cor, sobre a oração, quando éramos crianças não é mais correta. No começo de nossa experiência de oração trouxemos aquela visão de que a oração é falar com Deus, pedindo-lhe coisas. As nossas orações se assemelham, quase sempre, a uma tentativa de convencer Deus a modificar o seu projeto. Mas, com o passar do tempo, falamos, o que é mais importante, tentamos ouvi-lo, escutá-lo silenciosamente, demoradamente e acabamos por entender o seu amor e por aceitar os seus desígnios. A oração, portanto não modifica Deus, mas abre nossa mente, muda sim, o nosso coração para aceitar a sua vontade.
Hoje cremos que a oração não pode nem deve definir-se como levantar até Deus o nosso coração à espera que ele se incline à nossa vontade e atenda o nosso pedido. Senão que abra nosso coração para que seja Deus mesmo quem entre dentro dele e ore em nós. E não se trata de orar com a intenção primeira de pedir-lhe graças, senão com a primeiríssima intenção de que se faça em nós a sua vontade. O que realmente lhe devíamos pedir é isso: sermos capazes de fazer sua vontade.
Mas, como os discípulos nós não sabemos rezar e temos dificuldades com a oração. Sabemos teoricamente muitas coisas e conhecemos diversos métodos de oração. Porém, não sabemos orar. Em relação à oração, dão-se, entre outras, três atitudes opostas: desprezo, descuido ou descoberta do valor e prática da oração. Muitos dizem não rezar porque não sentem necessidade nenhuma de fazê-lo. Outros, que a oração não muda as coisas, nem o mundo, nem as pessoas. Outros ainda dizem não rezar porque não têm tempo, ou não sabem como fazê-lo.
Mas há aqueles que descobriram o valor e a espiritualidade da oração cristã, da oração com Jesus. São os grandes orantes de todos os tempos, são os que mergulharam, através da sua intimidade com o Senhor, na profundidade e riqueza escondida na oração e a cultivam assiduamente, seja na oração pessoal ou comunitária, na intimidade ou em grupos, no trabalho ou na solidão, seguindo o ensinamento e o exemplo de Jesus Cristo, o grande Mestre, o orante do Pai.
Bibliografia
Bento XVI. Os Apóstolos, uma introdução às origens da fé cristã. São Paulo, Editora Pensamento, 2007.
Neotti, Frei Clarêncio. Ministério da Palavra, comentários aos Evangelhos dominicais e festivos, Ano C. Petrópolis, Vozes, 2003.
Catecismo da Igreja Católica. Edição revisada de acordo com o Texto Oficial em Latim. Edições Loyola, São Paulo, 1999.
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